Meu nome é Elton Minetto

Sobre gerações

Em uma conversa de bar com o Bruno Pereira, AKA “Porkaria”, refletimos que talvez nós fomos a “última geração que lutou por algo”. Nós somos da geração que participou da luta pelo software livre, que íamos em eventos como o FISL, fazíamos InstallFests, escrevíamos tutoriais, montávamos laboratórios em universidades, criamos comunidades. Tudo isso com a cabeça cheia de idealismo, com a missão de “derrubar o software proprietário”, de fazer com que o mundo percebesse que o software livre era a solução. Nossos heróis eram o Richard Stallman (eu e meu amigo Luciano Frosi convencemos a nossa turma da universidade a se chamar “Turma Richard Stallman”), o Eric Raymond (meu herói particular, o livro A Catedral e o Bazar explodiu minha cabeça), o John “MadDog” Hall.

Mas essa batalha foi vencida. Hoje, o Linux roda em todos os servidores dos grandes players de nuvem, desde a AWS e o GCP até a “grande vilã”, a Microsoft e o Azure. O Linux roda na maioria dos celulares do mundo, no Android, e o software livre/open source está presente no iOS de outra nêmesis da época, a Apple.

Isso tudo moldou os profissionais que nos tornamos, a forma como aprendemos e ensinamos, em comunidade e “ao vivo”. Não que isso nos torne melhores ou piores do que as gerações que vieram depois; é só uma constatação.

A geração de devs que veio depois, especialmente a partir de meados de 2015, já começou a programar em macOS e VS Code, usando Linux às vezes, sem perceber nos seus contêineres Docker. Começaram em um momento em que os salários eram astronômicos se comparados aos da nossa época. Por não terem essa “guerra santa contra o grande vilão do software corporativo”, se tornaram uma geração menos idealista. Novamente, não melhores nem piores, apenas diferentes.

E agora estamos aqui, as gerações “guerreiras do open source” e as “guerreiras do PJ x CLT x ganhar em real x ganhar em dólar”, ambas assustadas e fascinadas com o que a IA vem fazendo e desfazendo nas nossas carreiras. Como vamos nos adaptar, só o tempo dirá, mas o futuro não vai ser tranquilo. Como talvez nunca tenha sido, apenas nos tornamos mais saudosistas quando algo nos ameaça.

E o mais importante: que nunca terminem essas filosofias que começam em uma mesa de bar com os amigos. Isso nenhuma IA vai substituir.